sábado, 22 de janeiro de 2011

Solidão a dois

Não há amor, nem diálogo. Apenas um relacionamento falido. O que fazer?

No apartamento, cada um no seu canto. Não há diálogo, não há entendimento, não há carinho.Apenas a ilusão de um relacionamento que, na realidade, já está falido, acabado. A solidão a dois é, muitas vezes, mais dolorosa que a solidão desacompanhada. Isso porque ela vem sempre carregada de mágoas e decepções que nutrem o monstro da desilusão, criando um desarmônico e doentio laço, que aprisiona o pseudo-casal.

Casada há 14 anos, a jornalista J. P., 38, garante que vive um inferno dentro de casa. Ela não sabe precisar ao certo quando o relacionamento faliu, mas consegue enumerar algumas razões. "É basicamente um acúmulo de coisas. Falta de paciência, intolerância, egoísmo e acho que até um excesso de idealização. Porque fomos varrendo os problemas para baixo do tapete, nos negando a enxergá-los e isso foi roendo o casamento. Reconheço meu erro e os dele também", conta ela. "Agora, por exemplo, estou aqui dando meu depoimento para você e ele está lá na sala vendo televisão. Quando cheguei do trabalho hoje, nem nos falamos. Ele ficou imóvel no sofá e eu vim direto para o quarto. A casa fica praticamente dividida em duas áreas e a gente mal se cruza", revela.

J. P. garante que a cada dia que passa, a vida conjugal fica pior. Ela compara o problema a um bolo, cujo fermento são exatamente as mágoas e decepções. "Conversar vai ficando cada vez mais impossível. Qualquer assunto que eu comece, pode ser o mais ameno como a comida do jantar, acaba em briga. Imagine quando eu introduzir algo sobre nós", lamenta. No entanto, as dificuldades precisam ser superadas e tomar uma atitude vai ficando cada vez mais urgente. "Na primeira oportunidade, eu pulo fora", ainda espera a jornalista.

“ Quem vive um drama desses na vida sempre reconhece, quando o problema já é fato, que já havia algo de errado desde muito tempo e esses indícios foram desprezados.”


Relacionamentos que agonizam desse mal são extremamente comuns, segundo a terapeuta de casais Margareth Labate. Ela confirma que o problema nasce devagarzinho, bem debaixo dos olhos vendados do casal. "Existe um desprezo muito grande pela intuição. Quem vive um drama desses na vida reconhece, quando o problema é fato, que já havia algo de errado desde muito tempo e esses indícios foram desprezados. É muito importante identificá-los e solucioná-los quando ainda são incipientes. É justamente o acúmulo de feridas que mina a saúde de um relacionamento", comenta.

Eu queria ter uma bomba

A psicóloga reforça que sentimentos como ansiedade, rejeição, desprezo e desejo de fuga não devem ser, de maneira nenhuma, negados. "De fato, para muitas pessoas, é muito difícil reconhecer defeitos no seu projeto afetivo que, quase sempre, nasce envolvido por uma promessa de perfeição e eternidade. Mas certas barreiras anunciam um novo caminho de evolução para uma relação e é aí mesmo que está a solução para uma queixa comum nesse quadro que é a rotina, a falta de novidade. São dessas mudanças que um casamento se nutre", considera.

Vista grossa diante das dificuldades do outro e excesso de idealização também acabaram com o casamento da fisioterapeuta Elza D'Ávila. Mas a agonia se arrastou por quase cinco anos. "Não foi fácil terminar o casamento. Acho que nunca é fácil, mesmo quando está doendo. No meu caso, lembro que pensava sempre na minha casa vazia, na minha vida sem marido, que efetivamente já existia, mas me dava calafrios. Vivi para o casamento por mais de 15 anos e o divórcio me parecia o reconhecimento do meu fracasso", confessa.

“No dia seguinte, fui breve e direta: ‘quem vai ficar nesse apartamento? Eu ou você?'”


Foi preciso que se "inventasse" um motivo pontual para que ela engatasse uma conversa definitiva. Ou quase isso. "Eu descobri que ele tinha outra, o que era absolutamente esperado. Na verdade, ele me fez descobrir isso, espalhando indícios para me chamar atenção e me forçar a uma atitude, exatamente como homem faz: não conversa, dá evidências. Já éramos praticamente dois estranhos, dormindo em camas separadas, quando tomei coragem e resolvi falar. Já era quase hora de dormir, ele já estava deitado no sofá. Comecei com o assunto e dali a pouco, ele estava roncando. Acabou naquele momento. No dia seguinte, fui breve e direta: 'quem vai ficar nesse apartamento? Eu ou você?'", lembra a fisioterapeuta. Em dois meses, sua vida tinha mudado completamente e para melhor. "Pedi muito tempo com medo, poderia ter me sentido livre muito antes", pondera.

A poder de resistência ao tempo de um relacionamento é medido pela capacidade do casal de lidar com os desejos e potenciais um do outro. "A busca pela estabilidade e a segurança são o maior obstáculo para o crescimento em conjunto. O passado, como diz a própria palavra, passa e a cada dia que passa surgem novas expectativas e possibilidades. Amar não é um esforço, mas exige responsabilidade para com a evolução do outro porque precisamos manter acesa a nossa admiração por ele. Não basta apenas encontrar a chamada pessoa certa. A manutenção da paixão é a grande missão", encerra Margarth Labate.

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