domingo, 16 de maio de 2010

O trovador solitário

FOTO:  MARCO ANTONIO TEIXEIRA/AJB "Muita gente achava ele chato, mas Renato era o catalizador. Era quem unia aquela gente toda. Quem fazia com que as coisas acontecessem", dizia Renato Rocha, o então futuro baixista da Legião Urbana.

Freqüentavam festas, escutavam discos importados. O gosto geral era pelo punk. "De 76 a 78 eu ouvia muito rock progressivo. Aí o progressivo acabou. Genises e Yes perderam componentes. Comecei a ouvir Beach Boys, Jefferson Airplane, Bob Dylan e Leonard Cohen. Então, os jornais passaram a falar mal de toda essa gente. Apontavam para o Sex Pistols. Eu ficava curioso", disse Renato Russo em entrevista à revista Bizz.
Com essas influências, e mais The Clash e Eddie And The Hot Rods, Renato, que ainda não se chamava Russo, formou o Aborto Elétrico em 1978, banda que reunia os músicos Fé Lemos e André Pretórios. Renato tocava baixo, Fê era baterista e André ficava na guitarra e no vocal. Chegaram a fazer sucesso nas festinhas de Brasília. Mas André, filho do embaixador da África do Sul, teve que se alistar. "Foi para África lutar contra os negros", lamentou o músico.
Em uma discussão, Fê jogou uma baqueta no Renato. Neste momento, o grupo chegava ao fim. Surgiu então o Trovador Solitário: Renato Russo, um banquinho e um violão. Mas sua fase Bob Dylan não duraria muito. "Sempre gostei de ’tchurma’. Desde pequeno era ligado em filmes de ’tchurmas’", dizia o futuro vocalista.
Legionatários - Renato decidiu então formar uma base de baixo/ bateria - ele e Marcelo Bonfá - e chamar integrantes de bandas locais para a voz e a guitarra. Sempre com uma formação diferente. Daí o nome Legião Urbana. Mas esta idéia inicial não deu certo.
Mudanças aconteceram e logo já contavam com um guitarrista fixo, Eduardo Paraná, que só queria solar. Contudo, o objetivo era fazer um som mais elaborado que o do Aborto. Chamaram também o tecladista Paulo Paulista Guimarães. Com esta formação, fizeram a primeira apresentação do grupo, em setembro de 1982.
O virtuosismo de Paraná e Paulista empurraram os dois para fora da banda. Renato Russo passou então a contar com a guitarra de Ico Ouro Preto (irmão de Dinho, futuro vocalista do Capital Inicial). Mas esse também não durou muito. Finalmente, Dado Villas-Lobos assumiria a guitarra.
Um dia de 1984 veio a notícia-bomba: Renato Russo havia cortado os pulsos. A comoção foi geral. Mas o próprio tratava de falar que o gesto não passava de um "acidente". "Cortei os pulsos mas não para me matar nem nada. Foi frescura, eu estava bêbado", explicava. Fôra uma besteira para chamar a atenção de algum rapaz. Renato era carente, capaz de se apaixonar com a maior facilidade. E de se frustrar com mais facilidade ainda.
Segundo o jornalista Arthur Dapieve na biografia do músico, da série Perfis do Rio, a inatividade de Renato Russo criava um problema. Ele havia perdido alguns movimentos das mãos. Não poderia tocar baixo durante algum tempo. O músico também estava querendo ter mais liberdade para cantar e cuidar dos interesses da Legião. Foi assim que o baixista Renato Rocha entrou em cena. A banda começou a se apresentar fora de Brasília.
Nessa época, os Paralamas do Sucesso já haviam gravado e faziam sucesso. Com o exemplo dos amigos da Capital Federal, "os legionários" acreditavam que era uma questão de tempo para que estourassem também. Renato sonhava acordado. Chegou a dizer para os pais que seria o líder da maior banda do país. Uma fita demo da Legião Urbana tocava na Rádio Fluminense do Rio, mãe da renascença do rock brasileiro nos anos 80.
Qaundo começaram a ficar badalados em Brasília, as propostas de gravadoras apareceram. O primeiro convite foi feito, porém, pelo trabalho errado. Chegara a gravadora EMI Odeon uma demo de Renato quando este ainda assinava ’Trovador Solitário’. Gostaram do estilo Bob Dylan e do vozerão Elvis Presley. Mas não iriam ter interesse em outro trio de Brasília cujo cantor usava óculos.
No entanto, o grupo não sabia dessas histórias. Chegou a ir ao Rio para gravar outro demo no final de 1983, que não foi aproveitado. No início de 1984, novamente vieram à cidade carioca, desta vez para um compacto. Os produtores queriam Geração Coca-Cola como um rock country. Quando os meninos descobriram a intenção, saíram pela escada abaixo. Na saída, trombaram com outro produtor da casa, Mayrton Bahia. Foi a salvação. Um tal de deixa disso que fez com que os ânimos se acalmassem.

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